Meus lamentos
Que vida de jumento
Que trabalha no intenso
Sem nenhum divertimento
O capim é seu único alimento
E a recompensa o sofrimento
No roçado
Puxa sempre o arado
Não faz nada de errado
Mas sempre vai encontrar
Mas marca do chicotar
No futuro e no passado
O jumento fez parte
De toda historia humana
Carregou pedra nas costas
Ajudaram vários bacanas
Na sua vida não herdou
Nem uma palha ou grama
Seus lábios cortados
Pelo arreio improvisado
De uma ponta a outra
Em sua boca
Um ferro sem higiene
E todo enferrujado
Dois tambores
Do lado de uma cangáia
Carregando a tira colo
Mais três fecho de varas
E no meio da rua
Levando peia na cara
Carreguei Cristo no meu lombo
Foi o único momento feliz
Do Egito carregue as pedras
No sertão as águas dos chafarizes
E mulheres e crianças
Mas isso não me faz feliz
Às vezes me pergunto
Se existe um céu pra jumentos
Porque para apanhar tanto
E viver nesse sofrimento
Símbolo da falta de inteligência
E apanhar sem argumento
Como alimento
Fui chamado de jabá
Foi morto capturado
Meu coro arrancado
E salgado sem parar
Para mais um alimentar
Nos meus olhos
Colocam sempre dois tampões
Fechando a visão dos lados
Para ver com condições
A visão apenas da frente
E obedecer a dois cordões
Se eu for vendido
Meu valor é abarato de mais
Em um mercado qualquer
Não chego a valer cinco reais
Tratam-me como peste
Deixam-me sempre pra traz
Um carro também eu puxei
Nunca me neguei a trabalhar
Meu pescoço ainda dói
Das correntes e mi amarrar
Do peso do carro na ladeira
A meu casco a me castigar
Cordas de agave
Presa nas minhas pernas
Nos momentos sem trabalho
Castigo-me sem tréguas
Quando volto ao trabalho
Desmunheco na selva
Ai o ser humano
Cruel como sempre foi
Diz-me o meu destino
Nos curral de boi
Dando-me um tiro na nuca
E dizendo esse se foi
Da mesma forma o homem mata
Seus irmãos sem ver de que
Destrói sonhos e vidas
Lares por puro prazer
Não dar tempo nem de falar
As bombas destroem pra valer
Meus versos não são tristes
É a verdade pra valer
De tudo que eu digo agora
Não tiro uma vírgula pode crer
Mas o jumento é o próximo santo
Que a igreja vai ver...